sábado, 29 de abril de 2017

CONTO: OS ANOS ERAM ASSIM...- ESCRITOR EDNALDO BEZERRA


Uma brisa soprou, um passarinho começou a cantar, olhei para os galhos da castanholeira, mas não o localizei. O sol estava alto, quase meio dia. Vladimir, o caçula, brincava alegremente. Carolina interrompeu a minha abstração: “Continua, pai.”
– Continuar? O que você quer mais saber?
– Ah... sobre a violência cometida pelos comunistas na Revolução de 1964 e durante o governo militar. Soube que houve assaltos a Bancos, sequestros. É verdade? A professora não falou sobre isso na aula, mas vi na internet, durante as campanhas presidenciais.

Peguei o meu caderno de anotações para consultar e comecei a falar: 
– Talvez seu avô lembre-se de mais detalhes, porque ele era militar da ativa naquela época. Eu ainda era muito novo, mas vou lhe relatar o que ele me contou e o que sei a respeito: no início dos anos sessenta o clima na América Latina estava tenso, havia a intenção dos comunistas em implantar o comunismo no continente. Recursos financeiros foram destinados pela União Soviética a Cuba para dar cabo a essa empreitada. O ditador comunista Fidel Castro, como todo mundo sabe, era o líder incumbido de fomentar a ideologia Marxista nos países latino-americanos e financiar grupos de guerrilhas para a luta armada. Por outro lado, os conservadores, naturalmente, contavam com o apoio norte-americano.

No Brasil, mais de vinte organizações foram formadas e começou a onda de terror. Em 1965, a Polícia Militar de Minas Gerais conseguiu derrotar os guerrilheiros que se instalaram na Serra do Caparaó. Em 25 de julho de 1966, aqui no Recife, houve um atentado terrorista no Aeroporto de Guararapes, que matou o Jornalista Edson Régis de Carvalho e o Almirante Nelson Gomes Fernandes e que feriu muitas pessoas entre as quais o tenente-coronel Sylvio Ferreira da Silva e o ex-jogador de futebol do Santa Cruz Sebastião Tomaz de Aquino (o Paraíba), que teve posteriormente a perna direita amputada.
– O quê? Pai, aqui em Recife teve isso? Não acredito.
– Pode acreditar, deixe-me prosseguir. Em 1967, Carlos Marighella, militante do Partido Comunista, viajou para Cuba, a fim de ser orientado sobre a propagação da luta armada; no mesmo ano, em setembro, ele criou a Aliança Nacional Libertadora (ANL). Outro grupo liderado pelo ex-capitão do Exército Carlos Lamarca, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), numa atitude pérfida, explodiu cinquenta quilos de dinamite no Quartel General do II Exército, matando o soldado Mário Kosel Filho e ferindo mais seis militares. Ainda em São Paulo, no dia 12 de outubro de 1968, os guerrilheiros da VPR metralharam e mataram o capitão Charles Rodney Chandler, do Exército Americano, dentro de um veículo, quando saía de sua residência. Foi executado na presença da esposa e de um filho pequeno.

A situação não era muito diferente no restante do país; em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, por exemplo, ocorreram vários assaltos a Bancos e atentados com bombas. Visando padronizar o terrorismo nas cidades, Marighella lançou, em 1969, o Minimanual do Guerrilheiro Urbano. Naturalmente, houve repressão aos crimes e prisões de diversos militantes. Diante disso, os comunistas começaram a executar sequestros e exigiam, em troca da liberdade do sequestrado, a soltura dos guerrilheiros presos. O sequestro do embaixador americano, Charles Burke Elbrick, supostamente sugerido pelo guerrilheiro Franklim Martins, resultou na liberação de quinze guerrilheiros, entre eles José Dirceu de Oliveira e Silva (aquele que foi ministro-chefe da Casa Civil no governo do Lula e que foi afastado depois do escândalo do Mensalão). Também foram sequestrados o embaixador alemão, Ehrenfried Anton Theodor Ludwig Von Hollenben , o cônsul japonês, Nobuo Kochi, e o embaixador suíço, Giovanni Enrico Bucher, em todos os casos, o governo brasileiro cedeu à exigência dos sequestradores, a fim de preservar a vida dos diplomatas.

– Em 08 de maio de 1970, a VPR, comandada por Carlos Lamarca, deslocou-se para o Vale da Ribeira onde o pelotão do tenente Alberto Mendes Júnior sofreu uma emboscada. Prisioneiro, o militar foi julgado pelo tribunal revolucionário e executado a coronhadas de fuzil, tendo o crânio esfacelado pelos golpes desferidos pelos guerrilheiros Diógenes Sobrosa de Souza e Yoshitame Fujimore. Depois que Lamarca morreu em combate, os guerrilheiros passaram a sequestrar aviões comerciais, obrigando os pilotos a pousarem em outros países para conseguirem asilos políticos. Somente para Cuba foram desviadas quatro aeronaves.

Em Salvador, no dia 27 de outubro de 1970, Theodomiro Romeiro dos Santos, militante do Partido Comunista, matou o sargento da Aeronáutica Walder Xavier de Lima, deixando a viúva com dois filhos menores. Quando li esta história, mesmo com toda característica heroica que um escritor de esquerda dera ao personagem protagonista, fiquei me perguntando: o que faziam três jovens armados no Dique do Tororó? Boa coisa é que não era. E se fosse hoje, os policiais também não os prenderiam por porte ilegal de arma? Um sujeito algemado a outro teria como fugir dos militares e policiais que faziam parte da patrulha? Imaginei a cena e concluí: a menos que estivesse armado com uma metralhadora, a fuga era praticamente impossível. Portanto, o assassinato do sargento não só me pareceu desnecessário como apenas tornara-se mais um agravante para o prisioneiro.

Quanto à região do Araguaia, os guerrilheiros já estavam por lá desde meados de 1965. No início dos anos setenta, com uma ocupação mais maciça dos comunistas, as Forças Armadas Brasileiras foram ao combate e fizeram o cerco. José Genuíno (Aquele mesmo, ex-presidente do PT e que renunciou após o escândalo do mensalão.) foi preso em 1972 e, em seguida, Osvaldo Orlando da Costa, mais conhecido como Osvaldão, foi morto em 1974. Depois disso, os militares, em maior número, venceram o conflito. Há quem diga que foi um massacre semelhante ao de Canudos. Mas, por outro lado, há evidências de que, nas diversas ações empreendidas pela guerrilha naquele período, muitos guerrilheiros que abandonavam as armas eram acusados de traidores e condenados à pena de morte pelos tribunais revolucionários, sendo executados pelos próprios companheiros.

O telefone celular tocou, era minha esposa avisando que o almoço já estava pronto. Desliguei e, para finalizar a conversa, disse a Carolina: 
– Os jovens são facilmente manipulados, de forma que havia também vários movimentos estudantis. No intuito de colocar a opinião pública contra o regime militar, muitos comunistas se infiltravam nessas aglomerações e disparavam com arma de fogo contra os manifestantes.
Aquela geração de jovens não entendia que havia um grupinho de comunistas – os líderes e seus correligionários – que usufruía as riquezas oriundas de Cuba, dos assaltos a Bancos e de outras fontes, e que eles, os estudantes, não passavam de “massa de manobra” – eram todos títeres. Aliás, era muito natural que a juventude se entusiasmasse com qualquer tipo de ideologia que lhe fosse apresentada e desejasse participar das mudanças políticas do país, pelo simples fato de as ações ensejarem desafio à autoridade. Afinal, não é próprio dessa fase da vida ser avesso ao domínio e à disciplina? O problema é que aqueles jovens ingênuos, hoje, são historiadores, sociólogos, engenheiros, professores, jornalistas, escritores, ou seja, formadores de opiniões, e, como se estivessem embriagados, eles ainda se orgulham de suas lutas e não querem enxergar que, na verdade, lutavam por um regime totalitário, para a instauração de uma ditadura comunista semelhante a de Cuba.

Enfim, Carol, os anos eram assim...


Ednaldo Bezerra - escritor

3 comentários:

  1. Na época os jovens era idealista... hoje são em sua maioria alienados e idiotas como o autor da reportagem.

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    1. Luis Melo,você tenta denegrir a imagem do autor, que só disse a verdade. No entanto, é você o idiota que, além de não conhecer a verdade, é um perfeito analfabeto. Mas é natural que você não concorde, pois não entende nada de concordância.

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  2. Parabéns ao Ednaldo Bezerra por essa magnífica publicação bastante significativa.

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